Medo de tiros, dificuldade nos estudos e busca por proteção: os efeitos da megaoperação em crianças e jovens da Penha

  • 29/10/2026
(Foto: Reprodução)
Professor de pré-vestibular avalia impactos de megaoperação nos alunos A megaoperação que deixou 122 mortos nos complexos da Penha e do Alemão teve efeitos que permaneceram na rotina da comunidade mesmo depois do fim dos confrontos. Um ano depois, crianças e adolescentes relatam medo de sair de casa, de ir à escola e de frequentar espaços de lazer. Os depoimentos revelam como uma ação policial de grandes proporções atravessa o cotidiano de moradores que convivem há anos com a violência e a insegurança. 📌Um ano da megaoperação: esta reportagem faz parte de uma série do g1 sobre os desdobramentos da ação realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, com 122 mortos. Leia todas as reportagens. A preocupação com novos tiroteios e a interrupção dos estudos também estão entre os efeitos da violência na vida de crianças e adolescentes do Complexo da Penha, segundo os profissionais. Na Vila Cruzeiro, o professor Marcelo Martins viveu de perto um dos episódios que marcaram aquele dia: corpos foram colocados em frente ao espaço onde funciona o projeto social Estudando para Vencer, e ele ajudou na retirada nas buscas por mortos na mata da Serra da Misericórdia, de onde dezenas de corpos foram removidos durante a madrugada. Imagem de drone mostra corpos levados a praça no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, no dia 29 de outubro de 2025. Ricardo Moraes/Reuters ✅ Siga o canal de notícias do g1 Rio no WhatsApp Para quem trabalha com crianças e adolescentes na região, os efeitos da violência não se limitam ao momento dos confrontos. O medo pode interferir na frequência às aulas, na participação em atividades de lazer e na possibilidade de circular pelo próprio território. Também afeta as famílias e os profissionais que tentam manter espaços de acolhimento e oportunidades para os jovens. Faltas às aulas e prejuízo aos estudos Marcelo é professor de Matemática, nasceu e cresceu na Vila Cruzeiro e fundou o Estudando para Vencer, iniciativa comunitária que oferece preparação para vestibulares e escolas técnicas. O projeto já ajudou alunos a ingressar em universidades públicas e instituições de ensino técnico. Ele ressalta que a operação aconteceu na semana anterior ao Enem. Naquele período, o projeto não conseguiu manter a rotina de aulas e revisões como havia planejado. “Nós tivemos aqui uma semana muito difícil porque foi antes da prova do Enem. Então nós não conseguimos montar revisões, aquilo que todo pré-vestibular faz, principalmente os privados. Faz na semana do Enem, semana só de [ciências] humanas, semana só de exatas. Nós não tivemos isso. Nós não conseguimos fazer isso porque o medo tomou conta”, relatou o professor. As atividades foram suspensas depois da operação e só foram retomadas em março de 2026. A presença dos corpos em frente ao espaço também marcou a equipe e os estudantes, segundo Marcelo. O professor conta que, em dias de confronto, os alunos podem ficar presos no local enquanto há tiroteios do lado de fora. A insegurança também interfere na decisão das famílias de permitir que adolescentes frequentem aulas à noite, que são fundamentais para quem trabalha ou estuda de dia. “Muitas das vezes a gente está aqui dando aula e, do nada, chega o Caveirão [veículo blindado das polícias], o tiroteio começa, e os alunos ficam presos aqui”, contou. Professor Marcelo Martins Reprodução/g1 “E o jovem também sair daqui às 22h é complicado. Querendo ou não, a gente sofre o reflexo disso tudo até os dias de hoje”, disse. Segundo Marcelo, o projeto costuma começar o ano com cerca de 200 interessados, mas, em 2026, recebeu aproximadamente 50. Ele ressalta, porém, que ainda é cedo para dimensionar o impacto da megaoperação sobre a procura e os resultados dos estudantes. O professor ressalta que a violência não é o único obstáculo enfrentado pelos alunos. Muitos precisam dividir o tempo entre a preparação para as provas e o trabalho para ajudar no sustento da família. “Ele tem que trabalhar. Ele tem que levar o pão para dentro de casa. Ele tem que defender a comida primeiro, porque a insegurança alimentar deles é muito grande. Então, a gente está sempre dividindo o espaço com a educação e com o trabalho. Muitas das vezes a gente perde para o trabalho”, explicou. Marcelo também destaca que o projeto tem a função de fortalecer a autoestima dos estudantes e mostrar que eles podem chegar à universidade ou ao ensino técnico. “Acho que a principal função do Estudando para Vencer é resgatar a autoestima dos alunos, mostrar o quanto o aluno é capaz se ele se dedicar”, disse. Professor Marcelo Martins e a ex-aluna Lorena Arquivo pessoal Entre os exemplos de alunos que passaram pelo projeto está Lorena, uma jovem negra que estudou durante 3 anos na iniciativa e realizou o sonho de cursar Direito na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Marcelo conta que foi à formatura da ex-aluna e se emocionou ao lembrar da trajetória dela. “Eu nunca chorei numa formatura, estou sendo muito sincero. Mas, na dela, as lágrimas desceram porque veio a trajetória da Lorena”, relatou. Medo de sair de casa e de voltar à rotina A psicóloga Thaís Marques, moradora do Complexo da Penha, atende de forma remota 4 pré-adolescentes de 12 a 14 anos que vivem na região. Após a operação, ela começou a acompanhar os jovens, que relataram medo de sair de casa, de ir à escola, de passar por determinados lugares e de participar de atividades de lazer. A preocupação com a possibilidade de uma nova operação também aparece nas conversas. Thaís explica que a violência pode manter crianças e adolescentes em estado de alerta constante. Os efeitos não atingem apenas quem presenciou diretamente cenas traumáticas: a sensação de insegurança também muda a maneira como as pessoas circulam e organizam a vida cotidiana. Segundo a psicóloga, algumas escolas também começaram a perceber mudanças no comportamento dos estudantes e a sinalizar preocupações. Ela relata que, entre os jovens acompanhados, há manifestações de ansiedade e hipervigilância. “Eu preciso dizer que a gente não está acostumado. E eu digo isso com apropriação, porque não tem como a gente se acostumar com o que é ruim”, afirma. Para Thaís, a impressão de que a população se acostuma à violência pode esconder uma estratégia de sobrevivência. A rotina precisa continuar porque as pessoas precisam estudar, trabalhar e garantir renda, mas isso não significa que o medo tenha desaparecido. A psicóloga também chama atenção para os efeitos sobre a autoestima. Crianças e adolescentes que convivem com a violência, o racismo, a pobreza e a falta de acesso a serviços públicos podem passar a se sentir menos capazes ou menos merecedores de oportunidades. “O jovem pensa: ‘Eu não me sinto capaz porque eu não sou suficientemente bom para estar naquele espaço’”, destaca. Mensagem na parede do projeto Estudando para vencer Miguel Folco/g1 Ela ressalta que crianças negras aprendem desde cedo estratégias para tentar se proteger em abordagens policiais e em situações de risco. Na avaliação da profissional, a possibilidade de serem atingidas pela violência reforça a sensação de vulnerabilidade e de vigilância. “Não anda com um guarda-chuva na mão, coloca na mochila. Não anda com capuz, tira o capuz. Se for parado, para, levanta as mãos.” Os efeitos da violência também aparecem na educação. Segundo Thaís, as interrupções no calendário escolar já faziam parte da rotina de estudantes da região antes da megaoperação, em razão de confrontos e tiroteios. Em algumas situações, projéteis chegam a atingir salas de aula. A assistente social Evelin Dias, da Frente Penha, afirma que a violência interfere diretamente na possibilidade de os jovens frequentarem escolas, cursos e atividades de lazer. Quando a rotina é interrompida, eles também precisam explicar as faltas e lidar com consequências que não provocaram. “A gente tem que reconstruir a confiança desse jovem, reconstruir os sonhos e as possibilidades desses jovens. Então, assim, o impacto psicológico foi muito grande”, afirma Evelin. Famílias buscam apoio e atendimento Após a megaoperação, integrantes da rede comunitária se mobilizaram para ajudar famílias que procuravam parentes e precisavam de informações sobre os mortos. De acordo com Evelin, moradores também buscaram orientação para acessar a Defensoria Pública e o Instituto Médico-Legal (IML). A assistente social afirma que algumas famílias perderam parentes que contribuíam para a renda da casa. Além do impacto emocional, a perda trouxe dificuldades materiais, enquanto os efeitos psicológicos podem se tornar mais evidentes com o passar do tempo. Evelin relata que crianças e adolescentes atendidos por iniciativas da região apresentam sinais de sofrimento que variam de agitação e dificuldade de concentração a retraimento e tristeza. A própria estrutura de acolhimento comunitário foi atingida. Segundo ela, uma instituição usada para receber e cuidar de moradores teve uma janela quebrada por um fragmento de projétil. O episódio abalou a sensação de segurança em um espaço que deveria funcionar como proteção. A Frente Penha conta com uma equipe multiprofissional, com psicóloga, assistente social, psicopedagoga e colaboradora da área da saúde. O trabalho é feito de forma itinerante, em instituições e locais onde as pessoas precisam de atendimento. A equipe ainda busca um espaço próprio para ampliar o acolhimento. Apesar da mobilização de moradores e organizações parceiras, Evelin avalia que a resposta pública não atende a toda a demanda. “O que eu acho maravilhoso é essa autoajuda, mas a ajuda do Estado mesmo ainda não chegou. O que chegou foi ajuda, auxílio de outras instituições parceiras”, afirma. Ela também aponta dificuldades na relação entre os serviços públicos e os moradores. “O serviço público que a gente tem hoje não acolhe essa demanda toda, inclusive porque não dialoga muito com a comunidade”, diz. Veja todas as reportagens da série Um ano depois, 33 alvos estão foragidos e chefes vivem na região Quem são os chefões do CV alvos que seguem foragidos Relatório sobre câmeras de PMs indica tortura, ameaças de morte e agressões MPRJ já denunciou 28 PMs da ofensiva por diferentes crimes ‘Sou um milagre’: delegado baleado reconstrói emboscada

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/10/29/medo-de-tiros-dificuldade-nos-estudos-e-busca-por-protecao-os-efeitos-da-megaoperacao-em-criancas-e-jovens-da-penha.ghtml


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