El Niño é o culpado pelos temporais e ventanias que assustaram o Brasil? Entenda
03/08/2026
(Foto: Reprodução) El Niño estaria por trás do vendaval no Rio e em SP
Enchentes, tornados, granizo, deslizamentos, ventos de mais de 100 km/h e até uma rara formação de nuvens de rolo. Em uma mesma semana, fenômenos extremos provocaram mortes e destruição no sul do Brasil, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Diante da sucessão de eventos, surge uma pergunta: até que ponto o El Niño, já instalado no Pacífico, pode ser responsabilizado por tudo isso?
A resposta dos cientistas ouvidos pelo Fantástico é que o fenômeno já está influenciando o clima brasileiro, especialmente no sul, mas não explica sozinho todos os episódios recentes, como o vendaval que atingiu São Paulo e o Rio de Janeiro na quarta-feira.
"O que a gente vem observando é uma antecipação de potencial influência desse fenômeno", afirma o pesquisador Lincoln Muniz Alves, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico na região próxima à costa do Peru. Quando se intensifica, altera os padrões de circulação atmosférica e muda o comportamento das chuvas e das temperaturas em diversas partes do planeta.
Segundo Giovanni Dolif, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), os efeitos já começaram a ser sentidos no Brasil.
"Ele agora já está influenciando, já está favorecendo essas tempestades severas, inundações no Sul e o pico que se espera desses eventos deve acontecer daqui a alguns meses", explica.
Sul enfrenta os primeiros efeitos mais evidentes
O Rio Grande do Sul foi uma das regiões mais castigadas na semana, com chuva intensa, granizo e tornados provocados pela passagem de uma forte frente fria.
Para os especialistas, é justamente no sul que a influência do El Niño aparece com mais clareza neste momento. Historicamente, o fenômeno favorece o aumento das chuvas na região e pode potencializar episódios de precipitação extrema.
Ainda assim, os cientistas alertam que o El Niño não é o único fator envolvido. Eventos meteorológicos severos dependem da combinação de diferentes elementos atmosféricos, que variam de caso para caso. As previsões, porém, preocupam.
"O Brasil precisa ficar preparado para uma probabilidade de eventos extremos maiores até o final do ano", alerta Lincoln Muniz Alves.
Vendaval em SP e no RJ teve outra origem
Se o El Niño ajuda a explicar parte dos desastres no Sul, os especialistas não atribuem ao fenômeno a origem direta das ventanias que atingiram São Paulo e o Rio de Janeiro.
A explicação passa por uma dinâmica atmosférica diferente. Uma massa de ar muito frio avançou do sul em direção ao sudeste. Ao chegar à região, encontrou uma massa de ar mais quente do que normalmente se espera para o inverno e soprando em sentido contrário.
O choque entre essas massas de ar criou condições para a formação de uma poderosa frente de rajadas, capaz de produzir ventos destrutivos. Quanto maior a diferença de temperatura entre elas, mais violenta pode ser a interação.
Foi esse mecanismo que levou à derrubada de árvores, colapso de estruturas, interrupções no transporte e acidentes que deixaram mortos tanto no Rio quanto em São Paulo.
Um dos fenômenos que mais chamou atenção durante a passagem da frente fria foi a formação das chamadas nuvens de rolo, estruturas alongadas que parecem cilindros se movimentando pelo céu.
Essas nuvens se formam quando o ar quente e úmido condensa rapidamente em uma atmosfera marcada por fortes contrastes de temperatura e ventos intensos.
O piloto Passos viveu a situação de perto durante um voo entre o Rio de Janeiro e uma plataforma de petróleo no mar.
"Não tinha como mensurar o tamanho dela e a velocidade com que ela se aproximou foi algo inacreditável. A gente não imaginou que estava com aquele deslocamento na nossa direção", contou.
Segundo ele, tudo aconteceu em questão de minutos.
"A gente enxergou essa formação. Ela estava longe da plataforma. Quando a gente fez a curva, ela já estava do nosso lado. Foi algo muito repentino. Eu nunca tinha visto algo tão rápido assim."
Durante a aproximação para pouso na plataforma, os ventos saltaram de cerca de 20 km/h para 100 km/h. Diante do risco, a tripulação decidiu retornar ao Rio.
"A segurança em primeiro lugar, sempre", disse o piloto.
Com duas décadas de experiência e mais de 8 mil horas de voo, Passos afirma perceber mudanças no comportamento do clima.
"Está se comportando diferente. São mudanças drásticas, repentinas. Mesmo com a previsão, a gente se surpreende vira e mexe."
O planeta mais quente amplia os riscos
Na mesma semana, inundações e deslizamentos atingiram a Índia, enchentes e uma intensa onda de calor foram registradas na China, a Alemanha contabilizou milhares de mortes associadas ao calor extremo, a Inglaterra enfrentou uma seca histórica e o Chile sofreu com nevascas e inundações.
Segundo estudos citados pelo Fantástico, o aquecimento global já aumenta a intensidade e a frequência de diversos eventos climáticos extremos. Na Europa, por exemplo, pesquisadores concluíram que os incêndios florestais recentes se tornaram mais prováveis em razão da elevação da temperatura média do planeta.
Para Giovanni Dolif, uma atmosfera mais quente cria condições mais instáveis e difíceis de prever.
"Uma atmosfera mais quente se torna mais turbulenta, mais caótica, por isso, mais difícil de prever."
A conclusão dos cientistas é que o El Niño já exerce influência sobre os eventos extremos observados no país, especialmente no sul. Mas ele atua sobre um cenário mais amplo: o de um planeta cada vez mais quente, onde fenômenos meteorológicos severos encontram condições favoráveis para se tornar mais intensos e destrutivos.
El Niño é o culpado pelos temporais e ventanias que assustaram o Brasil?
Reprodução / Fantástico
GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico
Ouça os podcasts do Fantástico
ISSO É FANTÁSTICO
O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.
PRAZER RENATA
O podcast 'Prazer, Renata' está disponível no g1, no Globoplay, no Deezer, no Spotify, no Google Podcasts, no Apple Podcasts, na Amazon Music ou no seu aplicativo favorito. Siga, assine e curta o 'Prazer, Renata' na sua plataforma preferida.